MISTURA

[conto criado em dueto, por mim e pelo Poeta Matemático, publicado também no Morango com Gengibre]

Quando Clara chegou em casa naquela noite de novembro nem desconfiava do que acabaria se passando. Era sexta-feira e a semana tinha sido mais pesada do que o habitual, pois ela tinha voltado de uma viagem a trabalho. Devia voltar só no sábado de manhã, mas conseguiu uma conexão de avião de última hora.

No quarto, tirou o casaco, deixando-o cair sobre o chão, despiu-se completamente, amarrou os cabelos em coque e foi tomar um desejado banho. Estava frio, lá fora garoava leve, fazendo barulho nos telhados. Não viu seu marido. Ele devia ter emendado o trabalho com um happy hour.

A água quente lhe fazia bem, relaxada. Não conseguia explicar por quê, mas sentia uma grande excitação. O toque das mãos em seu próprio corpo produzia calafrios. Podia sentir os bicos dos seios duros, sensíveis, reagindo delicadamente ao deslizar macio da água. Este pequeno sentimento tornou-se quente, acolhedor, tomando conta de seu corpo. A boca abriu-se num suspiro, quando ela tocou a própria nuca. A pele arrepiada, pontilhada de pontos solitários: pequenos vulcões ativos, prestes a entrar em ebulição.

Pensava em Mário, seu marido. Eles sempre se entenderam tão bem. Agora, depois de mais de uma semana longe, ela sentia um grande vontade de ser possuída como só ele era capaz.

Uma de suas mãos agora deslizava febrilmente no meio das suas pernas, toque delicado, sensível, buscando os recantos escondidos do seu corpo. Dedos que logo invadiam e provocavam intensas e involuntárias contrações. Ela gemia docemente, sentindo de olhos fechados os efeitos de seu próprio prazer.

Repentinamente ouve vozes, barulho de copos tilintando, gelo… Fecha o chuveiro para escutar melhor. O que poderia ser isso? Uma das vozes é do seu marido, a outra, desconhecida. Sua curiosidade cresce enquanto seu coração dispara, a outra voz é feminina. Chuveiro fechado, seu corpo ainda recoberto de espuma, pés molhados escorrendo sobre o tapete do quarto, o som das vozes se torna mais nítido, risos, silêncios… mais silêncio. Sua vontade é sair correndo e entrar na sala, mas controla-se e pé ante pé dirige-se ao corredor, já ouvindo alguns sussurros, gemidos, sons abafados… Sua respiração acelera, ela sente-se num misto de excitação e raiva. Faz frio, mas seu corpo ferve.

Num determinado ponto o corredor se alarga e forma um hall, onde ela coloca-se estrategicamente, vendo e não sendo vista. Mário está parcialmente nu, ainda de camisa e o laço da gravata desfeito serve de coleira que é puxada por uma mão de unhas vermelhas, só o que ela vislumbra da outra pessoa. Move-se mais à frente louca de curiosidade, percebendo em si uma estranha excitação.

Ela sente uma raiva imensa, mas mantém-se imóvel, ouvindo cada parte dos sorrisos, dos beijos estalados. A mulher desconhecida tira a camisa de seu marido, arranha seu peito enquanto beija-o com volúpia, dizendo coisas desconexas. Depois disso, joga-o com força sobre o sofá, colocando a sandália de salto sobre sua barriga.

– Beije meu pé.

Ele faz uma cara de contrafeito e ela lhe estapeia a face, ruidosamente…

– Agora…

Mário, o marido de Clara está entregue a uma grande excitação. Beija o pé, chupa cada um dos dedos delicados e bem cuidados, submisso, entregue. Ela tira o vestido longo com um movimento rápido e certeiro, permanecendo vestida apenas com uma calcinha minúscula, transparente. Clara sente um prazer inexplicável ao ver aquela cena. Seu marido era apenas um brinquedo para aquela mulher maravilhosa. Seu corpo pulsa de desejo. Deixou então a toalha cair e contemplou-se inteiramente nua sobre o chão frio de azulejos. Seus dedos ágeis tocavam seu clítoris, enquanto ela observa a mulher desconhecida cavalgar ruidosamente seu marido, usando a gravata como uma corrente em que ela domava seu cachorrinho.

Clara aperta a mão com suas pernas, arqueia o corpo e tenta conter os gemidos. A excitação é grande e ela explora-se profundamente, enquanta aperta os próprios peitos. Pensa naquela mulher, seu charme, a boca grossa de lábios esculpidos, as sobrancelhas bem-feitas, os seios volumosos, as mãos delicadas contrastando com o jeito forte, soberbo de mulher decidida. Tudo que ela mais queria de si mesma. E ela punha-se de olhos fechados, respiração alterada, sentindo os pequenos espasmos que antecedem um gozo maravilhoso. E, quando ela abre os olhos, para ver o corpo nu daquela mulher que lhe causou tanto tesão, viu que seus olhos e os dela tinham-se encontrado. Tinha sido descoberta…

Clara, mesmo paralisada de medo, lateja de desejo. Por alguns instantes elas encaram-se para em seguida a loura ignorá-la ao mudar de posição numa provocação, ajoelhando-se entre as pernas do seu marido, encarando-a cinicamente ao chupá-lo com desmedida dedicação, engolindo-o inteiro, lábios e língua relaxados deslizando de cima a baixo numa repetição enlouquecedora. Mário larga-se sobre o sofá gemendo palavrões, olhos que ora se fecham em delírio e ora abrem-se como um voyer admirado, enlouquecido.

Tomada por um ímpeto, Clara aproxima-se do sofá colocando-se ao lado da desconhecida, partilhando o pau do seu marido que se oferece completamente rijo, pulsante. Recomeçam a chupá-lo juntas, uma deliciosa mistura de línguas e pau, o gosto dele, o delas, a saliva morna que se mistura e escorre junto a mãos que deslizam e apertam suavemente.

Mário abre os olhos novamente confuso, observando maravilhado a cena onírica à sua frente. Fantasia, delírio? Sua amante e sua mulher compartilhando seu pau, esquecidas, olhos fechados entregues ao desejo. Aos poucos soltam-no e entregam-se a um beijo febril, longamente saboreado, agarradas, famintas, seios eriçados, bocas coladas, corpos suados que brilham. Caem uma sobre a outra, se esfregam, mãos que buscam, se exploram mutuamente, línguas sedentas que provam, descem, chupam, lambem. Louco delírio… Enquanto diante daquela cena inacreditável, Mário delirando, masturba-se descontroladamente, explodindo de tesão.

E, na noite fria e solitária, os três corpos misturam-se sedentos, de tal forma unidos que nem se sabe se há começo ou se há fim. De certo mesmo só um desejo ardente, urgente, imprescindível que toma tudo, viceja. Desejo de pesadelo, suplício, que só se aplaca no gozo, no gosto dos gostos misturados.

Comments
9 Responses to “MISTURA”
  1. O texto já comentei lá no Morango com Gengibre, passei aqui para dar BEIJOS, é dia internacional do beijo… BEIJOOOOOOOSSSSSS!!!!

  2. Dani disse:

    Um conto com um desfecho maravilhoso, porque de cara imaginamos que a mulher vai ficar histérica de ódio do marido, rs.
    Peguei emprestada uma foto daqui 😉
    Bjos queridona!!!

  3. Bob disse:

    Fiquei explodindo de tesão do lado de cá.

  4. Ricardo Rayol disse:

    hummmm auto-biográfico?

  5. Urban disse:

    Não Ricardo, nem um pouco.
    😉

  6. Trodat disse:

    UAU!!! De tirar o folego. Muito instigante… Saudades!!!

  7. Renata disse:

    incrível…

  8. Urban disse:

    Trodat!!
    Vc por aqui… Adorei, rs.
    Venha sempre, saudades tb!

    😉

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