DESEJOS PASCOAIS – um conto santo

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Brigite, trinta e muitos anos, poucas inseguranças, muitos objetivos. É uma mulher moderna, arrojada, de personalidade forte.
Era domingo de Páscoa e a tarde arrastava-se pesadamente. Diante do espelho, toalha caída sobre o chão do banheiro, pele levemente úmida, gotas escorrendo dos cabelos descendo suavemente até a curva dos seios, ainda arrepiados pela ducha fria. Quantas dúvidas são refletidas diante do espelho esfumaçado? Seu olhar é vago, suas certezas também.
A mesma lembrança de dias atrás volta à sua cabeça. Quem é aquele homem, o que ele quer? Não que ela não saiba seu nome, endereço, trabalho, preferências, até sua paixão. Algo porém escapa à sua ferina percepção. Ele traz no seu âmago o mesmo enigma que ela carrega, tornando-a prisioneira desta perigosa e instigante relação.
Brigite está só. Seu apartamento cheira a essência de lavanda. As cortinas estão cerradas, a penumbra acalma suas inquietações. Seus pés deslizam calmamente pelo chão e ela sente-se tranqüila, mas a solidão, às vezes, é muito pesada.

A toalha sobre o chão ainda guarda o seu perfume, o tom da sua pele. Ela chega ao quarto, sem saber ainda o que vestir e afunda-se na cama em meio aos lençóis. Ainda é preciso massagear o corpo, cuidar dos cabelos e perfumar-se. Suas mãos começam pelas pernas, espalhando o creme e subindo lentamente por todo corpo. Inevitável, nesta hora, não pensar nas mãos dele, um toque suave e firme ao mesmo tempo capaz de provocar uma descarga elétrica sobre sua pele. Como esquecer esta sensação desencadeada por seu simples toque. Pura química! E ela pensava: como esquecer o efeito das suas palavras e do seu olhar, uma intimidade que transcende o simples encontro de dois corpos, que vai além, vai no olhar intenso, no sorriso descontraído, no entendimento mútuo. Uma cumplicidade marginal, mantida em segredo, mas que borbulha e ferve ao tocar a realidade.
Seu segredo estava ali, agora, desnudo, como seu corpo. Intimo como cada parte recôndita do seu ser, secreto como sua nudez doméstica.
Suas mãos agora massageavam a curva das ancas e subiam para o abdômen, seguindo para os seios e descendo pelos braços completando assim esta etapa que ela gostava de chamar de “carinho semanal necessário”. Para ela esse ritual deveria ser praticado por mãos alheias, ou melhor, pelas mãos dele. Sua saudade doía, uma dor pungente. Seu desejo era urgente, ela o queria demais e sabia da reciprocidade. Mas ele fugia, apesar do interesse óbvio, e ela se perguntava porque.

Saulo, quase cinqüenta anos, muito seguro, algumas incertezas. A praticidade e a racionalidade dominavam seu mundo aparente, e ele evitava qualquer coisa ou pessoa que pudesse questionar ou desordenar sua vida metódica. Mas nem tudo na vida poderia ser tão ordenado assim.
Nesta tarde de domingo, estava frente ao computador organizando a agenda da semana e terminando um relatório. O final de semana tinha sido atípico com trabalho extra em alguns projetos. Exceto por Brigite ocupar seus pensamentos algumas vezes e alguns desentendimentos reincidentes com sua namorada, a vida transcorria em ordem, coisa que ele prezava muito.

Saulo era um homem que amava a tranqüilidade, a ordem, o trabalho e o sexo. Talvez não nessa ordem. Brigite entrara na sua vida por causa da falta de algumas dessas coisas, talvez o sexo, talvez a tranqüilidade. Ela era exuberante, transgressora, às vezes, indisciplinada. Porém o que o deixava mais atraído era aquele seu jeito doce, brincalhão, lúdico. O sexo entre eles era muito intenso e prazeroso. Ele vivia momentos inquietantes em seu relacionamento e Brigite, com sua doçura, cobria suas carências. Era o tipo de mulher que o instigava. Carinhosa, misteriosa e de uma sensualidade intrigante. Ele precisava controlar-se para não se envolver demais com ela; afinal precisava manter sua vida e seu relacionamento em ordem. Especialmente neste fim de semana, teve que manter o controle em alta, pois ela o tentara de todas as formas. Entretanto, agora tudo voltara ao normal, Brigite finalmente aquietara-se. Terminado o relatório, suas costas estavam tensas, pensou em como uma massagem seria benéfica agora. Lembrou das mãos de Brigite, do seu toque macio e carinhoso, mas deixou esta lembrança passar, era preciso ser racional. Um banho seria a solução para relaxar as tensões e aplacar desejos. Finalmente a ducha forte sobre as costas, um momento de relaxamento. O som da campanhia interrompe temporariamente o banho e Saulo veste o roupão dirigindo-se à porta.

Brigite imaginava como Saulo reagiria ao vê-la. Subindo pelo elevador ela pensava: sou louca! Trazia consigo um pacote térmico com um delicioso “Filé ao Poivre” tão picante quanto merecia a ocasião. Vestia um casaco branco, tipo sobretudo, que contrastava com sua pele levemente morena, e por baixo apenas seu corpo macio e uma calcinha dando um toque levemente insinuante.
Porta aberta. Brigite e Saulo frente a frente. Ele, boquiaberto, mudo. Ela, irresistível. Brigite aproxima-se, colando completamente seu corpo ao dele e sussurra em seu ouvido: “Boa noite”
Como resistir agora, perguntava-se Saulo. Ele recuou e pode ver pelo casaco entreaberto tudo em que tentara não pensar durante o domingo inteiro. Ela sorria para ele, como tantas vezes fez, feito uma garotinha pega em flagrante, mas completamente tentadora. Não esperou sua resposta e entrou deixando Saulo parado na porta ainda atônito. Ele não sabia explicar a torrente de sensações que esta mulher provocava. Não era apenas atração física, ele sabia. Era algo mais profundo e perigoso. E quase sem perceber, deixou-se encantar por ela. Tentou inutilmente tirar seu casaco, mas Brigite sumiu apartamento adentro e já voltava pela porta da cozinha trazendo pratos, talheres e montando a mesa para o jantar. Estava meio tonto com a velocidade dos acontecimentos, mas pôde perceber pelo casaco semi-aberto que deixava entrever rapidamente seus seios e uma calcinha tentadora, tentou puxá-la pelo braço, mas Brigite fugiu e quando voltou trouxe vinho e taças pedindo-lhe que servisse, assim ela fugia de seu assédio. Enquanto bebiam, foi aproximando-se por trás e abraçou-a, tentando mais uma vez retirar seu casaco, ela negou. Foi insistindo aos poucos, mas ela levantou-se e saiu. Fazia parte dessa relação esse enfrentamento mútuo, provocações de ambas as partes, só pelo puro prazer da sedução em “conta-gotas”. Era como retardar um final muito desejado para aproveitar o máximo do jogo.

Saulo reclamava, jantar não era exatamente o que ele queria. Imaginou Brigite sendo jantada nua sobre a mesa e tentou convencê-la a ceder abraçando-a e deslizando suas mãos calcinha adentro entre os pelinhos sedosos daquela bucetinha. Sua pele estava completamente arrepiada e exalava aquele cheiro que exercia um efeito perturbador sobre Saulo. Ela suspirava, ofegante e gemia baixinho, manhosa feito uma gata, deixando-o ainda mais excitado. Ela sabia o quanto seria difícil resistir enquanto aquelas mãos invadiam sua calcinha molhando-a completamente. Por fim ele conseguiu beijá-la, um beijo gostoso, tesudo e sacana. Ela, aos poucos, cedia e deixou-o tirar seu casaco. Agora seria impossível continuar resistindo, aquela mistura explosiva tinha acontecido; um homem, uma mulher, mãos, pele, fluídos, bocas. Uma química irresistível.

Brigite e Saulo tentaram resistir-se mutuamente, cada um por suas razões. Impossível seria resistir ao inevitável.
Brigite não mais temia os enigmas da alma do seu amante.
Saulo esquecera temporariamente a racionalidade.
Naquele momento um simples toque desencadeou uma torrente de desejos  impossíveis de controlar. E desta forma, terminava então uma intensa tarde de domingo de Páscoa de uma Semana que não foi tão santa assim.

(foto: cedida por Studio Silhueta)

Comments
17 Responses to “DESEJOS PASCOAIS – um conto santo”
  1. Ricardo Rayol disse:

    Que texto sensual e delicado. Adorei. faltava apenas o indefectível chocolate escorrendo pelo corpo para arrematar esse domingo pascoal.

  2. elisabetecunha disse:

    Menina , isso é praticamente uma relação sexual virtual,ai…………nossa, deu calor…….!!!!
    😉

  3. Fugu F. disse:

    Tocou no meu ponto fraco: misturar as duas bocas numa só, comer e ser comida. Outro dia, realizei uma fantasia antiga: ser comida por trás debruçada em cima da mesa, eu a sobremesa … suspiros …
    Você sabe tudo, Urban!
    beijo você

  4. pequenosdelitos disse:

    Brigite… Nome de pecadora! Uma Messalina que trama, nas profundezas da sua carne febril, desencaminhar uma alma reta como a do Saulo. Depois querem colocar a culpa do aquecimento globam em homens sérios e tementes como o honorável presidente Bush! O que aquece o globo são as labaredas do inferno que escapam pelas fissuras abertas por criaturas sexualmente desequilibradas como essa Brigite. Aqui mesmo, neste exato momento, aqueceu tudo! Sinto o fogo lambendo minhas pernas e querendo se apossar do meu membro reprodutivo, mas eu resisto. O sangue do pai tem poder! – PD (Pasor Desorientado)

  5. Urban disse:

    HaHaHaHaHa … Pastor Desorientado fique calmo … calminha, calminha … rsss
    PD vc é ótimo!!!
    😀
    xêro em vc!

  6. Paulo1911 disse:

    Eu não estive neste blogue…risssssssssssssssss
    Paulo

  7. diva_elfa{AL disse:

    uau… quente e delicioso, rs
    beijos carinhosos

  8. augusto disse:

    uau, bão demais.

  9. Cantábile disse:

    Essa é a BRigite que muitas mulheres gostariam de ser, nem que fosse só no domingo de páscoa.
    excelente e excitante texto!

  10. Um conto santo, um santo conto…
    excelente feriado pra ti, Urban.
    Beijos.

  11. zeze disse:

    Oi
    Claro que foi uma Páscoa Santa, mas a santidade é feita pelo povo…Gostei da foto

    Um Abraço

  12. Dark Lilith disse:

    Oi Oi Oi Oi
    Voltei!
    Que bom q sentiu a minha falta
    😉

    Beijos

  13. hum…

    rsrsrsrsrs

    Parece com algo que te mandei

    Pelo menos o começo…

    Muito bom, muito bom mesmo…

    Abraços

  14. Muito bom. Assim quem sabe a perspectiva da Páscoa com coelhinhos chatérrimos e chocolates engordativos não fica mais interessante… Mmmmm…

    Boa semanita!

    Bezzos (e adorei ver que você me linkou! Gracias! Honradíssima)

  15. Ricardo Rayol disse:

    relembrar é sempre muito bom.

  16. Ai amiga…

    isso me lembrou de uma viagem…rs..rs.rs….
    que acho que conto lá no blog…

    delíciaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

    saudades de vc!

    beijossssssssssssssssss

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