DENTRO DO LIVRO

beijonu-pb.jpg 

Dizem que a lua, quando cheia, influencia demasiado nosso estado de espírito. Hoje ela encontrava-se daquele jeito mágico: amarela, perfeitamente redonda, enorme, provocadora, brilhando sobre o mar. Chuviscava, eu voltava do teatro, e ela já havia lançado seu feitiço sobre mim.
Mais uma noite de reclusão, pensava eu até então…
Ao chegar em casa, aquele Audi parado na imensidão da garagem, vermelho, audacioso, provocante, traduzia fielmente o espírito daquela noite, embora eu não soubesse ainda disso.
Mais tarde, perceberia então, como os efeitos do feitiço da lua poderiam mudá-la completamente.

A outra vítima do feitiço, estava lá, no ponto mais alto do edifício, inocentemente deitado, sob seu edredom, lendo Nélson Rodrigues: …Helena e seu amante jantavam com o seu marido num ambiente cheio de suspeitas, receios, ambigüidades.
Eduardo tinha chorado quase até aquele momento, sofria de dores de amor, traições, triângulos protagonizados… Mal sabia que um dos personagens iria criar vida e materializar-se bem no seu quarto, diante dos seus olhos incrédulos, como que por encanto, para arrancá-lo de sua angústia.
Toca o interfone, já sonolento largou o livro sobre o colchão.


A verdade, é que éramos vizinhos e tínhamos um longo caso, conturbado e perigoso. Eu era casada e ele temendo problemas vinha tentando, há alguns meses, sem muito êxito, afastar-se. Em meio a essa insensata paixão, quase fomos descobertos, Eduardo, temeroso, recusava-se a novos encontros, enquanto eu, nesta noite, tentava instintivamente recuperar o tempo perdido. Era fato: estávamos completamente fora de controle, eram encontros furtivos e deliciosamente perigosos nos lugares mais inesperados.

Mais tarde, sem ter para onde ir, liguei para ele.
– Alô? – falei num tom de ansiedade.
Num misto de suavidade e desespero, contei meu suposto problema, pedindo sua ajuda. Eu estava literalmente na rua, meu marido viajando, a casa fechada, meu carro afogado, minha chave perdida e ele, ali, a poucos metros de mim, inteiramente ao meu alcance e domínio, completamente frágil.
Pedi para pernoitar na casa dele. A princípio ele relutou bastante, mas diante das minhas súplicas chorosas, cedeu. A contragosto, pude perceber, mandou-me subir. Obedeci, lógico!
Toquei a campanhia, ele abriu, me olhando boquiaberto… Naquele momento, uma ansiedade carregada dia após dia, desaguava quase que incontrolável. Imaginei seu turbilhão de pensamentos… Sei que ele pensou: “controle-se!” E nessa hora uma frase me veio à cabeça:“tenha cuidado com seus pensamentos; eles podem explodir em palavras a qualquer momento”, e eu sabia que ainda era cedo para torná-los públicos.
Encarou-me sério pedindo que entrasse. Seus olhos estavam melancólicos, vermelhos e aquela expressão frágil incendiou ainda mais o meu desejo.
Falou-me que o quarto de hóspedes estava ocupado, recebendo amigos e que eu dormiria no quarto dele e ele na sala. Pensei comigo: “Não vamos dormir, não agora…!”.
Olhando pelas amplas janelas do mezzanino dava para visualizar o céu limpo, cheio de estrelas e ela, a lua, enfeitiçando a noite.
A noite estava fresca e convidativa, a sala na penumbra, ao fundo podia-se ouvir “Relicário”… “o que está acontecendo, o mundo está ao contrário e ninguém reparou, porque está amanhecendo, se não vou beijar seus lábios quando você se for …”. Também queria beijar aqueles olhos tristes, olhei-os com ternura, mas fugiram amedrontados, buscando a lua que invadia a sala através da janela. Ele permanecia calado, pensativo, me tratava friamente. A quietude da presa, que pressente o perigo.
Pedi para ir ao banheiro, na volta ele me entregou uma camiseta e perguntou-me se queria comer algo. Neguei, disse que ficaria um pouco, na sala, olhando as estrelas e ele saiu dizendo ir à cozinha.
Eu conhecia muito bem aquele ap, cada cantinho e os flashs vieram à minha cabeça, como num filme.
Acendi um incenso, e lentamente fui tirando a roupa, deixando minha intuição conduzir a situação… Deitei sobre as almofadas, sentindo o aroma do incenso, o som da música ao fundo, a brisa morna, as lembranças ardentes. Pensei no suave contato das mãos dele sobre minha pele, fechei os olhos e ouvi sua voz melancólica sussurrada em meio a meus pensamentos, senti seus poros transpirarem sobre minha pele e ela se arrepiou… Embevecida, perdi a noção do tempo.
Subitamente ele voltou à sala e atordoado tentou mostrar desinteresse pela situação, mas seus olhos o denunciaram completamente. Perguntou-me se não usaria aquela camiseta e eu, ainda aturdida, apenas encarei seus olhos. Desviou o olhar e saiu calado, tudo aquilo ia além de suas forças.
Silêncio completo. Promessas vagas.
Quando retornou depois de algum tempo, trouxe outra camiseta, numa tentativa desesperada de abafar seus desejos. Toquei sua mão, ele me olhou sério, dizendo ser tarde e que eu deveria dormir. Deu-me boa noite retirando-se.
Resistência?
Ao mesmo tempo, levantei-me e fui para o quarto, contando os segundos que me separavam dele. Percebia que ele tentava em vão não me olhar. Mas era possível sentir a eletricidade no ar, a atração dos opostos, a tensão. O tênue limite do controle sendo rompido. Apaguei as luzes… Repentinamente ele entrou no quarto, tocou meu braço suavemente, me tomou a camiseta…
Resistência foi feita para ser testada, às vezes, pode ser quebrada. O brilho da lua deixava um rastro de luz sobre a cama, o livro ainda estava lá, com a ponta do pé o empurrei para fora. Suas mãos, agora, não procuravam mais o livro, nem seus olhos a sua história. Outra história se desenrolava naquele instante, turbulenta, luxuriosa e irresistivelmente fora de controle.

(foto: autor desconhecido)

Comments
18 Responses to “DENTRO DO LIVRO”
  1. N disse:

    Oi Urban,

    que coisa boa – você tem muito talento como autor. Eu estava quase explodindo de tesão, que não é muito saudável, mas resolvi o problema !
    Aconselho que continua este Blog, é coisa boa .
    Tenha um bom findi, beijos

  2. elisabetecunha disse:

    Menina sapeca!…bom final de semana!
    🙂

  3. Leilana disse:

    Impossível de não continuar voltando aqui neste seu atraente blog, Urban. Estou encantada com o q descubro. Esse texto mesmo aqui é excelente, vc tem realmente muita técnica literária e talento. Será q estou lidando com uma grande autora “in incognito”?
    🙂
    Tenha um excelente finde, cheio de boas inspirações… beijos!

  4. Cantábile disse:

    Fora do controle ficamos nós !!!!

  5. B. disse:

    Nossa! Eu adoro a maneira como vc conduz a história. É como se eu estivesse quietinha, só olhando a cena desenrolar… Beijos!

  6. Olá

    “O amor de sua vida”

    por:
    Roberto Freire

    Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades
    que ela tem, caso contrário os honestos,
    simpáticos e não-fumantes teriam uma fila
    de pretendentes batendo à porta.
    O amor não é chegado a fazer contas,
    não obedece à razão.
    O verdadeiro amor acontece por empatia,
    por magnetismo, por conjunção estelar.
    Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano.
    Isso são só referênciais.

    Ama-se pelo cheiro, pelo mistério,
    pela paz que o outro lhe dá,
    ou pelo tormento que provoca.
    Ama-se pelo tom de voz, pela maneira
    que os olhos piscam, pela fragilidade
    que se revela quando menos se espera.
    Você ama aquela petulante.
    Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco.
    Você gosta de rock e ela de chorinho,
    você gosta de praia e ela tem alergia a sol,
    você abomina o Natal e ela detesta o Ano Novo,
    nem no ódio vocês combinam. Então?

    Então que ela tem um jeito de sorrir que o deixa
    imobilizado, o beijo dela é mais viciante
    do que LSD, você adora brigar com ela
    e ela adora implicar com você. Isso tem nome.
    Você é bonita. Seu cabelo nasceu para
    ser sacudido num comercial de xampu
    e seu corpo tem todas as curvas no lugar.
    Independente, emprego fixo, bom saldo no banco.

    Gosta de viajar, de música,
    tem loucura por computador
    e seu fettucine ao pesto é imbatível.
    Você tem bom humor,
    não pega no pé de ninguém e adora sexo.
    Com um currículo desse, criatura,
    por que diabo está sem um amor?

    Ah!!!…o amor, essa raposa.
    Quem dera o amor não fosse um sentimento,
    mas uma equação matemática:
    eu linda + você inteligente = dois apaixonados.
    Não funciona assim.
    Amar não requer conhecimento prévio
    nem consulta ao SPC.
    Ama-se justamente
    pelo que o Amor tem de indefinível.
    Honestos existem aos milhares,
    generosos tem às pencas,
    bons motoristas e bons pais de família,
    tá assim, ó!
    Mas ninguém consegue ser do jeito
    que o AMOR DE SUA VIDA é!

    xi-coração
    herc

  7. pequenosdelitos disse:

    Seus textos me tomam pela mão. Sou um voyeur de suas histórias.

  8. Ricardo Rayol disse:

    Vai ganhar o prêmio das virgens vestais venusianas… se não é uma é um outro….rs

  9. elisabetecunha disse:

    Uau,…….. que quente!Fiquei tímida…..;)
    Tenha uma bela semana querida!
    🙂

  10. Fugu F. disse:

    Hmmm … delícia de texto!

  11. Viviana disse:

    Ando desaparecida, ando em falta com tanta coisa e com tanta gente! E até comigo!

    Mas vir aqui é tão bom pq é sempre uma forma deliciosa de me matar um pouquinho e de desejar viver cada vez mais e sempre in*ten*sa*men*te!

    Beijos.

  12. w.Moscolini disse:

    Amei…!!! Nessa vc se superou!

  13. w.Moscolini disse:

    Tenho tentado comentar em seu outro Blog mas esta impossível!!!
    Imaginou o texto perfeito que ambas não fariam?

  14. Olá!!!
    A Lua exerce mesmo uma influência louca, pelo menos em mim… e a Lua está bela nesta noite em Wallachia!
    Estou feliz, amando…
    Um belo final de semana pra vc, Urban.
    beijooos

  15. elisabetecunha disse:

    Menina..
    Esse casal vai pegar uma bronquite crônica!
    Tá frio!
    rssssss
    🙂

  16. adoro te ler!
    suave seja tua noite!
    bjOs…no coração =]

  17. zeze disse:

    Oi
    A Lua e o Luar dá cabo de muita gente…

  18. Ricardo Rayol disse:

    Vamos acabar com essa preguiça? rs bjs.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

  • DENUNCIE


  • SEXO E RESPEITO



  • COMPRAS

%d blogueiros gostam disto: